O apanhador no campo do chateio

Estou professora há dez anos. Orgulhosa. O lugar onde eu trabalho a todo esse tempo impõe-me felizmente que eu estude muito. Digo ‘impõe-me’ porque eu de fato  não tenho opção. Digo ‘felizmente’ porque se tivesse escolheria sim. E dessa forma fomos – eu e meus colegas – lendo, discutindo em reuniões de equipe, fazendo cursos de formação, aprimorando-nos dentro da metodologia da escola, o famigerado sócio-construtivismo. Cabe aqui uma defesa, por favor – o sócio-construtivismo da escola em que trabalho não é aquele a partir do qual se pode imaginar uma sala de aula em que um aluno está pintado de índio, outro come frutas da estação e um terceiro aprende, a seu tempo, a amarrar o cadarço. Não, aqui ninguém faz o que quer na hora que quer e detesto quando digo que trabalho com metodologia sócio construtivista e vejo quase imediatamente meu interlocutor imaginar ao meu lado uma horta. (Fazem-se hortas também, não em Português, mas acho que fazem).</p><p>Enfim, estudamos pra caramba. E é chegado um tempo em que, mesmo sabendo que ainda não estudamos tudo – tarefa talvez impossível – e que há indivíduos há ainda muito mais tempo que nós na docência, bate à porta a sensação de segurança metodológica, se é que a expressão existe. Os textos base da pastinha preta estão de acordo com as anotações do caderninho branco da reunião de equipe, que por sua vez vão ao encontro dos documentos produzidos – planejamentos, projetos. esquemas de trabalho – que a seu turno casam perfeitamente com as aulas e os registros de aula e que, finalmente, aparecem como partos nas produções dos alunos: textos, avaliações, falas em debates, comentários sobre leituras, lições de casa, cartazes. Pronto! Eu sei ensinar e eles sabem aprender e as dúvidas são quase, diríamos, divertidas.

Eu trabalho com projetos, eu crio situações problema, eu apresento conflito cognitivo, eu planejo e proponho tarefas complexas, eu promovo interatividade, eu realizo atividades de metacognição, eu crio quadros de referência, eu os levo a reinvestirem conhecimentos em situações inéditas…UFA! Eu sou a Roboteacher.</p><p>Mas e ai? Quando há crítica a minhas aulas  ou a aula de um colega de qualidade Friboi- que fique claro, nunca para fiscalizar e sim para retirar elementos para discussão e enriquecimento – alguma coisa é lembrada do vasto material de referência que por algum motivo não aplicamos, ou foi ótimo, mas poderia ser melhor.</p><p>Pego-me pensando. É nessas horas, talvez, apensas talvez, em que a segurança bate à nossa porta – e devemos, temos que deixá-la entrar, porque segurança é hóspede de que não se pode prescindir – que temos que, que, que…dar uma de louca. Eu sinto assim, sei lá. Descobri há pouco.</p><p>

Começou quando fiz uma leitura dramática com alunos de sexto ano. Encerrada a leitura, não sei em que contexto, falei de um porco, personagem de algum conto. Logo percebi o que ia acontecer. Começou um, depois outro, mais tarde tantos outros. Em pouco tempo metade da classe imitava porquinhos. Eu podia lançar mão de um recurso que domino plenamente. O berro enrustido. É aquele grave, em que se imposta a voz: “Parem imediatamente com isso. Aqui, na minha aula, não se faz barulho desse jeito, muito menos sem minha autorização”. Um ou outro continuaria. É a hora de partir para o individual e o olhar fixo. Olha-se no olho da pobre criatura: “Você não ouviu o que eu disse? Está me desafiando?” E parte-se então para a etapa, caso se faça necessário, de ameaça geral “SE alguém fizer essa barulho de novo, será anotado com  conduta inadequada”, e se a classe parecer rebelde: “SE alguém fizer esse barulho de novo levará uma advertência.” e se a classe parecer muito rebelde: “SE alguém fizer esse barulho de novo levará uma suspensão.” Mas naquele dia, não sei como, não sei por que, os barulhos de porcos me deixaram tonta, e eu não me sentia afrontada, eu me sentia feliz, e eu me perguntava: “Você é boa, não é, Milena? Você pode, não pode? Você segura a onda depois?” E eu ia me respondendo conforme o sorriso crescia: Sim…sim…sim!Então deixei, avisei-os que eles tinham trinta segundos pra imitar porco, que aproveitassem e fizessem gestos, que limpassem a garganta, que fizessem bem alto. E dados os segundos prometidos, mandei parar. E continuei a aula sem problemas. </p><p>

Pipocando assim, comecei a introduzir centelhas de aventura em meio às práticas que eu continuo seguindo e respeitando, são só centelhas, devem durar pouco, acontecer de forma espaçada e serem verdadeiramente mágicas, senão não têm serventia. Se o personagem está exausto, depois de subir a escadaria correndo do fantasma, por que não dar vinte pulinhos e se sentir exausto junto com o personagem? E se um dia você chegar triste no trabalho e um aluno lhe perguntar: “Por que você está triste?” e você responder: “Porque eu ainda não dei aula hoje.” É informal demais? Não sei… Não quero jamais dar uma de Sociedade dos poetas mortos, acho pretensiosa a ideia de ensinar a viver, quero ensinar língua portuguesa mesmo…com muita metodologia, e um pouquitinho de mágica. E se minha coordenadora vier com a pasta preta, o caderninho branco e os planejamentos na mão perguntar por que  eu fiz aquilo, vou responder: “Porque eu quis.”, com a convicção de uma coruja comendo marshmallows.

O caso da bolacha

Era verão alto. Janeiro. Estavam na praia, o grande grupo, família, familiares, familiarizados. Rodeavam barracas armadas e faziam suas atividades. Milho, castelo de areia, jacaré. Mas ela queria mesmo era ficar sozinha. Era menina, mas nem tanto; tinha tamanho para entrar sem avisos no mar. E foi. Nadando, nadando, nadando. Quando faltava um palmo pra não dar mais pé, mergulhou fundo. Era uma sereia? Lá embaixo, por um instante, sumiu o barulho frenético da felicidade alheia. O mar é dádiva única, porque abraça a todos que quiser, mas cada um sozinho. Ninguém ao mar está de fato acompanhado de outro ser humano. 

Foi quando viu, na névoa do fundo d´água, uma bolacha do mar enfincada na areia. E a desejou, assim, sem mais. Puxou-a da terra, mas como se tivesse raízes, a danada teimou um pouco antes de se deslocar. Enfim, de bolacha na mão, ela veio à superfície, quase de fôlego esgotado, e respirou fundo, fundo. 

Sentia uma excitação verdadeira – talvez primeira – e juntinho disso um ridículo de se sentir assim. Mas entre os dedos ainda finos manteve a bolacha a cada braçada de volta à praia, protegida como um tesouro, lhe fazendo coceguinhas no céu da palma da mão.

Quando se sentou na cadeira parecia que o surdo do mar ainda fazia efeito. Os primos brincavam, ela via, sentia também os cheiros de protetor solar, tateava a cadeira de praia áspera no contato com a pele arenosa. As mães contavam vez ou outra as crianças com o olhar. Ela estava sendo contada ou deveria ajudar a contar também? 

De repente ouviu uma voz. Alguém lhe falava. Juro – e ela jura – não sabemos quem é. Não era o pai nem a mãe, pelo enredo que se segue. Mas alguém disse:

– Muito bem, pegou uma bolacha do mar. Vai fazer o quê agora?

– Vou abrir, ver o que tem dentro.

– Então abra. Mas saiba que quando fizer isso vai matá-la. A bolacha e a estrela que tem dentro. É um animal, sabia?

– Não vou matá-la não! Ela não existe. Tá aqui na minha mão, parada. Não é nada.

– Estou lhe avisando, é um animal e tem vida. Mas se quer abrir, pois abra. 

– Eu não quero matar a bolacha…

– Mas então não abra…faça logo a escolha. Mata ou não mata?

– Então eu mato. É que quero muito ver o que tem dentro.

E abriu. Num cleque só. Espatifou a bolacha em dois pedaços assimétricos e viu por fim a pequenina estrela que lá estava, agora desapercebida de uma das pontas que ficara enfincada sabe deus onde. E sorriu. 

– Parabéns! Matou. 

– Não enche. 

– Mas matou. E era um ser vivo. Veja, hoje você mata uma bolacha do mar, amanhã está matando seu cachorro.

– Que é isso? Que absurdo. Cachorro eu não mato.

– É a mesma coisa.

– Não é!

– E quem disse que não é? Estrela, cachorro, pessoa, tudo ser vivo, não é lógico? 

– Não. Não na lógica que mora em mim. Não no que eu sinto aqui. – E apertou o coração no lugar errado, mas com intenção certa, esmagando o que sobrara da estrela. 

– Está muito bem então, sabichona. E agora que viu, vai fazer o quê? 

A menina olhou pra estrela esmigalhadinha em suas mãos. 

– Coitadinha…era tão bonita. Acho que você tem razão, sabe, eu não devia ter assim, aberto, olhado na cara dela, feito ela morrer tão rápido. 

– Eu avisei.

– Era tarde. Quando eu a vi no fundo do mar, ela já estava com destino traçado. 

– Sádica.

– É você! Já sei…vou enterrar a estrela, dar-lhe um fim digno, cobrir com areia, quem sabe uma reza, e pôr flor em cima. Ai tá bom. 

– Isso, faça isso. Dedique-se à estrela que você matou. Cave a areia, deixe entrar nas unhas, se cair nos olhos, não pare, continue. E a estrela vai lhe perdoar. E o resto também.

– Que resto?

– Sei lá, o resto que há.

– Sabe, eu não estou com vontade de enterrar a estrela. Vou me sentir uma idiota.

– Então pendura no pescoço e anda com ela pra sempre. Sua estrela companheirinha. A estrela que você matou.

– Vai ficar fedendo.

– Você aguenta.

Bateu uma brisa fresca, fresca…

– Eu não quero estrela mal cheirosa no pescoço não.

– Olha só, sua louca, deixou a estrela cair no chão, agora é que já era mesmo, agora não tem jeito, estrelinha morta, estrelinha perdida pra sempre.

– Meu deus, para com isso! Eu tô quase chorando, eu vou chorar…mas olha, eu não quero chorar não, porque eu sei que a bolacha do mar tem cara de bolacha e não de cachorro, e eu queria ver o que tem dentro e vi e pronto. E você, não sabe fazer outra coisa?

E finalmente se tocaram, porque a menina sentiu uma mão quente, quente, pousar na sua com firmeza. E lhe disseram, sussurrando, meio rindo…

– Não sei. Não sei fazer outra coisa não. 

Passou a sensação surda e ouviu quase de perto:

– Vem prima, vem brincar com a gente!

– Já estou brincando, já estou brincando…

– De quê?

– De espantar culpa. 

 

Metáfora

João e Maria casaram-se. 

– João, você sabe que o casamento é como uma gangorra, não sabe? Uma hora eu te equilibro lá em cima, depois você é que equilibra, e assim por diante…

– Eu sei… mas a gente não tem o mesmo peso, nem a mesma altura, vai ser meio difícil.

– Não seja bobo João, é uma metáfora. Não se trata de peso e altura, e sim de gostos e perspectivas.

– Claro, entendi.

– Então vamos lá.

E foram.

– Poxa João, você saiu andando sem avisar, me largou lá em cima, eu caí de bunda.

 

– Desculpa, desculpa, eu nem reparei. É que eu estava morrendo de sede, tá um calor danado, ai eu vi um bebedouro e não resisti. Perdoa vai.

– Machucou, sabia? Tô com a bunda roxa. Agora também não preciso mais de você. Tô aqui me divertindo sozinha no escorregador. 

– Vai escorregar de novo? Que graça tem? Dez mil vezes?

– EU estou me divertindo sozinha, já disse. Algum problema nisso?

– Nota-se que sua bunda está melhor.

– Não seja irônico. Ela está se recuperando.

– E o que aconteceu com os mesmo gostos e as mesmas perspectivas?

– Acabou no momento em que você foi sozinho no bebedouro. E nem me chamou.

– Mas meu amor, eu fui ver se era limpo, se tinha água. Deixa eu te levar lá agora. Depois a gente volta pra gangorra vai.

– Sei não.

– Por favor. Me perdoa.

– Não sei.

– Deixa eu voltar, por favor, vai ficar sozinha na gangorra? Não faz sentido…

– Tá bom vai, senta ai, mas olha, se me largar sozinha de novo, não te deixo voltar nem a pau que eu também não sou palhaça.

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– João, posso falar uma coisa? 

– Fala amor.

– Eu tô meio cansada da gangorra.

– Sua bunda ainda tá doendo? 

– Não, não é isso, é que é meio monótono, e eu fico te vendo de baixo, depois de cima, sei lá. Queria te ver de lado, de frente, to sentindo falta.

– Tá bom…E se a gente fosse no gira-gira?

– Putz, que boa ideia, O gira-gira é uma metáfora sensacional, porque os dois têm que fazer força, e têm que respeitar o tempo do outro, o que o outro está sentindo. Vamos!

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– Pra direita ou pra esquerda?

– Eu sou destro né?

– Eu sou canhota.

– Então, olha que legal, já vamos ter que fazer uma concessão, um dos dois. 

– Podemos começar pra direita, e depois ir pra esquerda.

– Tá. Um, dois, três….

– Ai, João, mais devagar…

– Quê? Não tô ouvindo…

– Mais devagar!!!!

– Ein?

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– Amor, desculpa, eu não vi que você ia vomitar.

– Nem eu, foi tudo tão rápido.

– É… Você não tá brava, né?

– Não, acontece, a gente tem que aprender a lidar com isso. Talvez eu enjoe na gravidez.

– Olha amor, o trepa trepa.

Fez-se um silêncio.

– João, sabe de uma coisa? Eu quero sair do parquinho.

– Eu também. A gente casou.

– Pois é. A gente não é mais criança.

– Não é.

– Chega de metáfora. 

– Chega.

– Você tá pronta? 

– Tô. Você está?

– Sim. Mas tem uma coisa.

– O quê?

– Tem que pensar que lá fora, se eu te machucar, não vai ser uma dorzinha no bumbum. Vai ser no coração.

– Tudo bem João. Eu também não vou me recuperar no escorregador. 

A Anfitriã – para Mariana

Ontem estive na casa de uma amiga, Mariana. Mariana. Mariana. Seu nome ecoa, tipo concha. Dizem alguns que  é junção de Maria, mãe de Cristo, e Ana, avó do mesmo. Mas minha Mariana tem gosto de mar e jeito pagão. Ao seu lado me sinto desarmada de toda a racionalidade que cultivei, orgulhosa, ao longo da vida. E adoro a sensação. Me sinto roxa – cor de que mais gosto, cor meio espiritual – e com ela o posso.

A prova de que nossa relação é ambivalente, múltipla, viva, é que o fio que nos levou uma a outra foi o ciúme e o cigarro. Na tentativa de impedi-la de conversar com um rapaz que me interessava, interceptei-os pedindo um Marlboro. Depois veio a cumplicidade e a mentira – fingíamos fazer ginástica na academia do condomínio. Depois veio tanto, tantos fios, teias. Podíamos ter nos tornado simplesmente aranhas. Tínhamos vocação para isso. Mas preferimos à teia da aranha a teia do enredo. Da história contada. Crescemos, é claro, ela parou de se vestir só de preto, eu parei fingir que não ligo pra como me visto. Nós casamos. Não com homens, isso também, mas agora nem me parece o mais importante. Casamos porque fizemos casa. Física e moralmente. Telhado a proteger e manter. Dizem que o importante não é olharmos uns aos outros e sim na mesma direção. Pois eu e Mariana somos então vesgas. Olhamos para todos os lados. Às vezes muito capazes de nos observarmos, às vezes de um egoísmo tétrico. Às vezes pensando palavra por palavra o que a outra está pensando, feito mágica; às vezes pensando que a outra só pode ser burra pra não estar entendendo. Não concordamos geralmente em relação a filmes. A literatura é um ponto em que nossas vaidades e nossas admirações uma pela outra se equilibram. A música ela me ensina. A dança fazemos mal, mas eu estou avançando mais rápido que ela.  Os jogos compartilhamos.

Ontem minha amiga Mariana foi minha anfitriã e tive um alumbramento (é a palavrinha pra insight, sabia Mariana? – ela vai ficar bem brava se já souber): nós somos mulheres agora. Não somos mais meninas. Ó que graça. Nos fizemos mulher, de massinha, de barro, de ferro, de geleia, de vidro. E somos amigas. Amigas. Amigas. Ecoa no tempo como concha.

Você é anfitriã do meu carinho, me recebe, me acolhe. É claro que eu gosto e acredito que nunca vou lhe fazer mal algum, que sou boa e que mereço espaço em você. Mas vou lhe dar um conselho de amiga sobre os outros: diz a lenda que o vampiro só entra se a gente convidar pra entrar. Para de convidar vampiro para entrar, por favor.

Você não vai seguir meu conselho, né, Mariana? Você tem a cabeça dura, o coração mole e a alma…anfitriã.  
Mari…Eu te amo. Eu te amo. Eu te amo.    

 

Imagine

São quatro cenas. Não impota se estão separadas por tempo, nem tampouco se são os mesmo casais que as protagonizam. Atenção: não são quatro histórias, amores diferentes. São talvez aspectos, apenas.

Cena1- No fundo da água turva do mar

Estão totalmente submersos na água. Ela, a início, ocupa o centro. Ele está meio sentado a um canto direito, tanto quanto é possível sentar-se flutuante na água, parece um buda.
Ela tem expressões que mudam a cada instante, todas agudas. As dele, mais estáveis.
Saem borbulhas das bocas, mas não é necessário se prender a dados de realidade, não morrerão.
Há a mesma proporção de água cercando-os, à direita, à esquerda, em cima, embaixo.
A água é escura, estão no fundo fundíssimo de um oceano, e por volta deles passa uma diversidade bela e colorida de espécies à qual nao dão a menor atenção. Não podem. Olham apenas um para o outro. E deliram. Agitam-se na água e se reunem, beijam-se, e na dificuldade de encaixar-se na fluidez da água, lutam. Arranham-se até, mas é dor lubrificada. Pegam-se pelo pescoço, amassam suas gorduras, estão nus. Entrelaçam pernas e braços, tropeçando-se, dão cambalhotas embolados, juntos. Umas algas compridas por vezes lhes enroscam na nuca.
Estão, depois, exaustos. Algum deles chora, mas o oceano abafa. Num instante está ele de boia, ela flutua por cima, depois trocam, viram-se. Ai empurram-se. Ela pressiona sua cabeça pra baixo, quer afogá-lo, e embora nesse momento saiam ainda mais bolhas de sua boca, ele a olha com certo desdém apontando para a inutilidade daquilo.
Ela grita – e ouça agora o som que só conhece quem já gritou dentro d´água.
Olha para o alto. Ele se afasta. Nada, nada, nada, usa todas as forças e músculos. Aos poucos vê-se luz amena vindo de fora. Chega à superfície. Num instante sente tudo, o frio e a sensação de estar na água que não sentia antes. Mas está no meio de nada. Apenas ao longe se veem luzinhas. Uma solidão atroz, desesperadora, mortal. Volta nadando mais rápido do que veio. Pelo amor de Deus.
Mais aliviada do que um afogado em superfície, ela o avista naquele mesmo canto, e o abraça, e se enrolam.

É a paixão, é a loucura, é o sufocamento, é a insegurança, é a sensação de que não há dois no amor.

Cena 2 Um vulcão talvez ativo em meio ao deserto

É tudo claro. Branco, amarelo, areia. Não há nada que não sejam formas da terra, montes pequenos e o vulcão. Há também ele e ela. São belos, ele principalmente. Tem olhos verdes de sorriso cínico. Ela tem uma magreza forte. Estão nus.
Correm atrás um do outro como jogo de esconde-esconde. Às vezes se tocam, se raspam, estão cheios de sensualidade.
Ela decide esconder-se de fato, atrás de um monte qualquer. Ele a procura, mas pouco. Logo estica os braços, relaxa, aproveita o sol que bate em seu lindo rosto. Ela desiste, assobia fino. Sai do esconderijo, dança, ri.
Ele a pega pela mão, beija-a. Vão a passos firmes e saltitantes caminhando ao vulcão. Ela passa as mãos nos braços dele e vê como são fortes, a pele tem cheiro bom, textura algodolesca. Ele percebe como ela é excitante, interessante.
Vão caminhando nas bordas do vulcão, meios dançando, saltos, dão montes de risadas. Se abaixam, se encompridam, se esguiam. Raspam a sola dos pés na terra morna e sentem prazer. Olham suas próprias sombras nas bordas do vulcão, deformadas. Arrumam as poses, os cabelos.
Bum….erupção….o vulcão solta lava quente, brava, densa, maior que tudo. Que perigo, que perigo! Eles correm, correm, correm o mais longe possível. Quando se julgam capazes, olham para os lados e percebem que correram cada um para um lado.
Estão, entretanto, muito aliviados por estarem salvos.

É a atração, a sensualidade, o desejo, o prazer empírico, o desconhecido, o tesão, a admiração fugaz, a auto preservação do amor.

Cena 3 – A floresta úmida

A floresta é típica. Há árvores altas por todos os lados, mas há também entre elas espaço suficiente para sentar e caminhar. Talvez haja alguns mosquitos e umidade. Ouve-se o barulhinho das águas que estão ali por perto, calmas.
O casal passeia de mãos dadas, depois começa a senti-las coçar e se separam as mãos. Mas não sem antes um carinho no braço confirmar que o laço ainda existe. “Estou aqui”, “Eu também”.
Andam devagar e sorriem, mas não gargalham. Falam pouco. De vez em quando ele passa as mãos sobre seus ombros e lhe beija as bochechas. Ela gosta.
Ele vê ao alto da árvore uma maçã e se arrisca um pouco em pegá-la. Sobe galhos, faz pequenos malabarismos, e volta com a maçã na mão, orgulhoso e risonho. Oferece-lhe a fruta conquistada como um prêmio, ela a pega na mão, mas não sente a menor vontade de comê-la. Está cansada dos pequenos malabarismos, mas acha doce.
Ela vê uma borboleta linda, como cores interessantes, e quer compartilhar com ele. Quer que ele veja a borboleta também e quer que ele também a ache linda. Mas ele olha para o outro lado. Não vê nada demais na borboleta.
Cai um pingo de chuva e imediatamente um se preocupa se o outro sentiu. Seriamente.
Voa alto um pássaro e os dois pensam a mesma coisa ao mesmo tempo. Mas não precisam dizer nad, sabem que estão pensando a mesma coisa. Faz parte de um repertório que têm. É uma sensação deliciosa.
Ela escorrega numa parte de terra já mais úmida, e ele corre para reerguê-la. Estava perto e deu tempo. Se não estivesse ela teria estatelado-se no chão. Ela nem sabe qual dos dois preferia. Já está tarde e está pensando bobagens. Tem medo de quando ficar velha perder a noção das coisas.
É hora de ir pra casa. Caminham de novo de mãos dadas porque sabem que no final da trilha há um chalé com lareira e pães.
Parece tudo muito comum, mas ela o olha de perfil enquanto andam e vê ele apertar os olhos como de vez em quando faz, uma espécie de tique. Ela acha lindo, ela o ama, eles se amam.
Ele pensa, quase sem perceber, que preferia ficar mais um tempo sozinho na floresta, pensando, só quinze minutos, sem ninguém ver.

É generosidade, a cumplicidade, a intimidade, o respeito, o cuidado, o conforto, a consistência do amor.

Cena 4- O universo infinito

Flutua um corpo humano sozinho nu no universo infinito.
É assustador, mas com calma, nota-se que é assim que tem que ser.
No nada, pensa sobre tudo, imagina, sonha, vivencia, lembra, sente, comunica-se até. Nada impede que surja o outro de repente, ou os que sempre estiveram ali.
Mas vale lembrar que são todos corpos humanos sozinhos nus no universo infinito.

É o amor próprio

Elena, eu, você…

Quando eu vi Titanic, em 1998, sabia que eu devia chorar. Então, quando o filme acabou, forcei os olhos com empenho, fiz uns grunidos, e em volta, as pessoas me olharam com aceitação no cinema.

Quando vi Elena, semanas atrás, não queria que percebessem que eu estava chorando. Mas as lágrimas vieram, abruptas, destemperadas. Saltou de dentro de mim um choro líquido.

Eu não sei se o filme é bonito. Acho, sinceramente, que é. Não sei se é pior ou melhor, como documentário, do que os outros filmes que existem. Eu, aliás, cometo a heresia de confessar que não gosto de documentários. Regra geral, prefiro a ficção, que me é mais saborosa.

Elena é um filme que fala de muitas coisas e, ouso dizer que, invariavelmente, provoca sentimento. É possível entender que o filme fala de arte, de amor, de família, de suicídio, de depressão. Todas essas interpretações me parecem necessárias e corretas, se é que é possível usar palavra tão objetiva.

No entanto, o tema de Elena sobre o qual quero falar não é nenhum desses…quero falar do narcisismo. Não me ataquem, ainda. Quando dizemos que alguém é narcisista, frequentemente desejamos ofender em algum nível. Eu não, posso jurar. Na realidade, não há ser humano que não seja narcisista em algum grau, e não há por que negar isso. Sempre dou risada quando numa dessas entrevistas do Jô Soares ou de revista, quando se pergunta ao artista qual é seu pior defeito, ele responde: “Sou comilona.”, “Sou cabeça-dura”. Isso não é defeito, ora essa! Anseio pelo dia em que um deles dirá: “Eu sou um puta dum narcisista.” Qual é o problema? O narcisista é confundido com o egoísta ou o  ‘sem noção’. E é possível que o seja, em alguns casos. Mas o narcisismo por si só não é falha de caráter. Que alternativa temos, nós, seres humanos, solitários de alma, únicos, entitulados ao direito, a princípio, de uma só vida, presos num corpo frágil e numa mente mais frágl ainda? O narcisismo é quase inevitável, é um mecanismo básico de defesa. Se acordamos sempre dentro do mesmo ponto, como acreditar que não é em torno desse ponto que o mundo gira?

Sendo assim, é com certa liberdade que digo que Elena é um filme que fala também do narcisismo sim. Bela, com dinheiro, amada pela família e os amigos e ainda íntima das artes, Elena sucumbe à própria obrigação de brilhar. É dona, desde a mais tenra infância, de um futuro magnífico. Guarda, como todo artista, um segredo. O segredo que em performance se revelará, conforme a arte se cumpre, perante grande e atenta plateia.

Mas não foi assim com Elena. E nem com quem é assim – pense em todos os artistas hollywoodianos, os atletas, os autores nobres guardiões da cultura – se cumpre o desejo da ligação com o outro, com o transcedental que se acredita existir, com a plenitude. É provável que a plenitude só venha mesmo ao religioso, em delírio, a meu ver, em negação.

Ao acreditar que somos especialíssimos, que temos um brilho que ninguém (ainda) vê, que um futuro gigantesco nos espera, caímos numa cilada narcisista e de efeitos, por vezes, dramáticos. A frustração vem na proporção do devaneio. Não somos tão especiais assim. Nem a arte, essa forma tão saudável de elaborar angústias, é suficientemente larga para abraçar o sonho do narcisista desesperado.

Não temos um destino superior. Vamos apodrecer iguaizinhos, verme por verme.

Aquiles, o maior herói de todos, se viu diante de uma escolha difícil: Morrer cedo e ser lembrado eternamente ou viver longa vida como um homem qualquer? Ao contrário do que muitos pensam, Aquiles não decide pelo estrelato. Ele, num primeiro momento, prefere o marasmo da vida. É o amor e o ódio que o fazem, de mãos dadas, caminhar rumo à própria morte. À própria morte e à fama eterna.

É ilusão nossa crer que temos a escolha de Aquiles. Não somos filhos de deuses. Não sabemos o nosso destino. Não seremos lembrados eternamente e, se formos, e daí? Seremos meras represetações do que sentem outros seres. Nós mesmos, nós como vida, nós como existência, somos assim…pequeninos. Pequenino, não, revejo-me. Somos do tamanho que temos. Pequenos para um dinossauro, enormes para uma formiga. Humanos.

Elena quer dançar com a lua, coitada. Não dá para dançar com a lua, querida Elena. Dá para fazer o filminho simples, belo, digno, que você fez numa câmera caseira, com a lua zanzando na tela. Isso dá. Mas não sacia, não é?

O animal satisfeito, dorme….disse Guimarães Rosa., em seu brilhantismo alcançado. E o insatisfeito, descansa como, senão na morte?

Sinceramente

Eu contei uma história, mas não era verdade. Não sei por que o fiz. Acho que fantasiei algo na cama antes de dormir, ou simplesmente roubei a história que alguém me contou e que eu quis fazer minha. As palavras foram saindo, ao meu refinamento, e os olhares me grudando, teias. Eu me enveneno de olhares, de ouvidos. Eu conto histórias bem demais, mas não tenho pacto com a literatura. Ela me exigiria a pureza que minhas histórias não têm, por ora.  E a dedicação que eu me nego, nem mereço.

Agora é tarde para desmentir a história. Fazer o quê? E quem liga? Não foi mentira de magoar o outro, nem de causar consequência. Foi história de vida que eu não vivi, só isso.

Não é verdade que mentir pra si mesmo é a pior mentira. Eu não minto pra mim. Eu sei que eu não sou protagonista daquela história. Eu choro até, eu grito. Eu conto então mais mil verdades para pagar a mentira que eu disse. Eu espalho verdade aos outros com a crueza das palavras bem ditas, mesmo as boas verdades ficam intensas demais ao sabor das palavras de um bom contador.

Cada um carrega um peso, é o que dizem. Eu minto de vez em quando, que é mais leve de carregar. Quando a emoção da mentira expira – e ela expira invariavelmente enquanto tenho sorte e bom senso – eu respiro fundo.

Eu menti quando disse que só me dizia a verdade, mas não tenho certeza.

Eu penso as verdades e as mentiras com ainda mais tensão do que as digo em palavras.

Cada um carrega um peso, é o que dizem.

Um diamante pelos meus pensamentos? Vem que eu te conto, eu sei contar tão bem…