Estou professora há dez anos. Orgulhosa. O lugar onde eu trabalho a todo esse tempo impõe-me felizmente que eu estude muito. Digo ‘impõe-me’ porque eu de fato não tenho opção. Digo ‘felizmente’ porque se tivesse escolheria sim. E dessa forma fomos – eu e meus colegas – lendo, discutindo em reuniões de equipe, fazendo cursos de formação, aprimorando-nos dentro da metodologia da escola, o famigerado sócio-construtivismo. Cabe aqui uma defesa, por favor – o sócio-construtivismo da escola em que trabalho não é aquele a partir do qual se pode imaginar uma sala de aula em que um aluno está pintado de índio, outro come frutas da estação e um terceiro aprende, a seu tempo, a amarrar o cadarço. Não, aqui ninguém faz o que quer na hora que quer e detesto quando digo que trabalho com metodologia sócio construtivista e vejo quase imediatamente meu interlocutor imaginar ao meu lado uma horta. (Fazem-se hortas também, não em Português, mas acho que fazem).</p><p>Enfim, estudamos pra caramba. E é chegado um tempo em que, mesmo sabendo que ainda não estudamos tudo – tarefa talvez impossível – e que há indivíduos há ainda muito mais tempo que nós na docência, bate à porta a sensação de segurança metodológica, se é que a expressão existe. Os textos base da pastinha preta estão de acordo com as anotações do caderninho branco da reunião de equipe, que por sua vez vão ao encontro dos documentos produzidos – planejamentos, projetos. esquemas de trabalho – que a seu turno casam perfeitamente com as aulas e os registros de aula e que, finalmente, aparecem como partos nas produções dos alunos: textos, avaliações, falas em debates, comentários sobre leituras, lições de casa, cartazes. Pronto! Eu sei ensinar e eles sabem aprender e as dúvidas são quase, diríamos, divertidas.
Eu trabalho com projetos, eu crio situações problema, eu apresento conflito cognitivo, eu planejo e proponho tarefas complexas, eu promovo interatividade, eu realizo atividades de metacognição, eu crio quadros de referência, eu os levo a reinvestirem conhecimentos em situações inéditas…UFA! Eu sou a Roboteacher.</p><p>Mas e ai? Quando há crítica a minhas aulas ou a aula de um colega de qualidade Friboi- que fique claro, nunca para fiscalizar e sim para retirar elementos para discussão e enriquecimento – alguma coisa é lembrada do vasto material de referência que por algum motivo não aplicamos, ou foi ótimo, mas poderia ser melhor.</p><p>Pego-me pensando. É nessas horas, talvez, apensas talvez, em que a segurança bate à nossa porta – e devemos, temos que deixá-la entrar, porque segurança é hóspede de que não se pode prescindir – que temos que, que, que…dar uma de louca. Eu sinto assim, sei lá. Descobri há pouco.</p><p>
Começou quando fiz uma leitura dramática com alunos de sexto ano. Encerrada a leitura, não sei em que contexto, falei de um porco, personagem de algum conto. Logo percebi o que ia acontecer. Começou um, depois outro, mais tarde tantos outros. Em pouco tempo metade da classe imitava porquinhos. Eu podia lançar mão de um recurso que domino plenamente. O berro enrustido. É aquele grave, em que se imposta a voz: “Parem imediatamente com isso. Aqui, na minha aula, não se faz barulho desse jeito, muito menos sem minha autorização”. Um ou outro continuaria. É a hora de partir para o individual e o olhar fixo. Olha-se no olho da pobre criatura: “Você não ouviu o que eu disse? Está me desafiando?” E parte-se então para a etapa, caso se faça necessário, de ameaça geral “SE alguém fizer essa barulho de novo, será anotado com conduta inadequada”, e se a classe parecer rebelde: “SE alguém fizer esse barulho de novo levará uma advertência.” e se a classe parecer muito rebelde: “SE alguém fizer esse barulho de novo levará uma suspensão.” Mas naquele dia, não sei como, não sei por que, os barulhos de porcos me deixaram tonta, e eu não me sentia afrontada, eu me sentia feliz, e eu me perguntava: “Você é boa, não é, Milena? Você pode, não pode? Você segura a onda depois?” E eu ia me respondendo conforme o sorriso crescia: Sim…sim…sim!Então deixei, avisei-os que eles tinham trinta segundos pra imitar porco, que aproveitassem e fizessem gestos, que limpassem a garganta, que fizessem bem alto. E dados os segundos prometidos, mandei parar. E continuei a aula sem problemas. </p><p>
Pipocando assim, comecei a introduzir centelhas de aventura em meio às práticas que eu continuo seguindo e respeitando, são só centelhas, devem durar pouco, acontecer de forma espaçada e serem verdadeiramente mágicas, senão não têm serventia. Se o personagem está exausto, depois de subir a escadaria correndo do fantasma, por que não dar vinte pulinhos e se sentir exausto junto com o personagem? E se um dia você chegar triste no trabalho e um aluno lhe perguntar: “Por que você está triste?” e você responder: “Porque eu ainda não dei aula hoje.” É informal demais? Não sei… Não quero jamais dar uma de Sociedade dos poetas mortos, acho pretensiosa a ideia de ensinar a viver, quero ensinar língua portuguesa mesmo…com muita metodologia, e um pouquitinho de mágica. E se minha coordenadora vier com a pasta preta, o caderninho branco e os planejamentos na mão perguntar por que eu fiz aquilo, vou responder: “Porque eu quis.”, com a convicção de uma coruja comendo marshmallows.